Não é coisa de somenos tentar intuir o que seria a literatura portuguesa com Jorge de Sena e Ruy Belo sobrevivendo duas ou três décadas à deadline de 78. Imaginar como entre si dialogariam, e cada um com hipotéticos interlocutores: Vasco Graça Moura e Joaquim Manuel Magalhães face a Sena (indignação, inscrição, culturalismo), António Osório e João Miguel Fernandes Jorge face a Ruy Belo («esgotamento dos imperativos do modernismo», para usar a síntese de Osvaldo Manuel Silvestre), Alberto Pimenta, António Franco Alexandre, Al Berto e Nuno Júdice, vozes inorgânicas que estabelecem a linha de fronteira entre o antes e o depois, ou seja, entre Fernando Assis Pacheco e Fiama Hasse Pais Brandão, por um lado, Helder Moura Pereira e Adília Lopes, por outro.
Atento a tudo o que mexia, Sena largamente escreveu sobre este mundo e o outro: os cancioneiros, Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, romantismo, modernismo, presencismo, neo-realismo, surrealismo (o famoso choque com Cesariny), literaturas estrangeiras, com especial enfoque na brasileira e na inglesa, etc., dando particular atenção a Camões, Almeida Garrett, Antero de Quental, Gomes Leal, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Florbela Espanca, Vitorino Nemésio, António Gedeão, Ruy Cinatti, Tomaz Kim, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, etc., sem esquecer Manuel Teixeira Gomes, José Rodrigues Miguéis e mais uns quantos. Convém acrescentar a Terceira Série de Líricas Portuguesas (1958), antologia que, contando com a edição aumentada de 1972, junta 73 poetas nascidos entre 1871 e 1929, fechando com Ana Hatherly. (Somados, os respectivos verbetes fazem um exaustivo tour d’horizon da poesia portuguesa de Novecentos.) A cronologia é cristalina.
E do lado de Ruy Belo? Desobrigado de tineta académica, o autor de Na Senda da Poesia (1969) usou de parcimónia. Escreveu sobre Sena, a pretexto dos sonetos de Camões, e também sobre poesia italiana, Fernão Lopes, Manuel Bandeira, José Régio, António Gedeão, Adolfo Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Sebastião da Gama, Herberto Helder, Nuno Guimarães e, em 1971, sobre João Miguel Fernandes Jorge: «Há mais de um ano que trabalho neste prefácio. Consegui ultrapassar o período de tempo que decorre entre o começo e o final dessa obra-prima que é Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil.» Ao contrário de Sena, Ruy Belo não era historiador da literatura nem sequer crítico com tribuna.
Em 1978 muda tudo. Morrem Sena e Ruy Belo, Carlos de Oliveira publica Finisterra, e Eduardo Lourenço inicia com O Labirinto da Saudade a psicanálise mítica do nosso destino.
Ao tempo, o génio de Agustina Bessa-Luís embaraçava o milieu, porque A Sibila (1953) fora elogiada por Régio e a trilogia da revolução — As Pessoas Felizes (1975), Crónica do Cruzado Osb. (1976), As Fúrias (1977) — provocava azia no PREC. A canonização começou com Fanny Owen (1979) e o filme de Oliveira.
A maioria das pessoas não se lembra, mas o primeiro romance de Saramago é de 1947, e o segundo, Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977. Nesse intervalo de 30 anos escreveu versos e crónicas. O aval do establishment chegaria em 1980, ano em que publicou Levantado do Chão. Em 1998, no exílio espanhol, et pour cause, o Nobel.
António Lobo Antunes apareceu em 1979, dois livros de uma assentada, primeiro Memória de Elefante, logo a seguir Os Cus de Judas, mudando mais fundo do que era verificável à época.
É fácil verificar que o mundo de Sena e Ruy Belo, como representado em 1978, sofreu uma guinada. Esse mundo, dominado por Torga, José Gomes Ferreira, João Gaspar Simões, Vergílio Ferreira, Óscar Lopes, Fernando Namora, Sophia, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Cesariny, Natália Correia, Alexandre O’Neill, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Herberto Helder, Maria Velho da Costa, Fiama, Almeida Faria, etc., esse mundo, dizia eu, mudou.
Teria mudado da mesma forma caso Sena e Ruy Belo tivessem sobrevivido mais uns anos?
Crónica publicada na edição de Dezembro (nº 75) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
A Livros d'Hoje aproveita a estreia do filme Valquíria em Portugal, na próxima quinta-feira, para publicar Sorte do Diabo — excerto da biografia de Hitler escrita por Ian Kershaw em dois volumes (Hubris e Nemesis) —, a história da operação montada para assassinar o ditador alemão em Julho de 1944.
Uma versão em mil páginas desta biografia será editada pela Dom Quixote ainda este ano.
O Mundo - o mundo é a rua da tua infância, de Juan José Millás (escritor que estará presente nas Correntes d'Escritas), galardoado com o Prémio Planeta 2007 e o Prémio Nacional da Narrativa 2008, é um dos cinco livros que fazem parte do arranque do novo projecto editorial da Planeta para Portugal.
A tradução portuguesa de The Host (Nómada), de Stephenie Meyer, será publicada pela Gailivro em Março. Trailer aqui.
Depois de Viagem à Felicidade (2007) e A Alma Está no Cérebro (2008), a Dom Quixote edita agora o terceiro livro de Eduardo Punset. Frente a Frente com a Vida, a Mente e o Universo chega às livrarias a 26 de Fevereiro e parte de conversas deste jornalista e divulgador catalão com alguns dos mais notáveis cientistas contemporâneos, como Stephen Jay Gould, Lynn Margulis ou António Damásio.
Excerto da conversa com António Damásio:
AD: Para dizer a verdade, gosto de Descartes, é um grande pensador, mas penso que o modo como o seu modelo foi interpretado exerceu uma influência negativa na nossa maneira de pensar. Parece que a única coisa importante é pensar, é a razão, e que aquilo que lhe está subjacente, a emoção e o ser, são menos importantes, quando na realidade formam um todo. O melhor que podemos dizer é que «somos», que a vida reside no nosso organismo e que temos emoções e sentimentos, e que tudo isso tem uma grande influência na imaginação, no processo de pensar e de raciocinar. Portanto, definitivamente, as maiores conquistas do nosso organismo – a razão, claro está, e a criatividade – não estão separadas, não se encontram noutro nível nem surgem de cima para baixo, mas sim de baixo para cima, são uma continuação para algo muito complexo mas que, na realidade, emana da representação do corpo, do organismo e da sua vida.
EP: Tu cunhaste uma frase fantástica a esse respeito: «As ordens mais baixas do nosso organismo estão entretecidas com a razão superior.» Portanto, na realidade, tudo se encontra misturado. Esta foi a tua primeira grande contribuição, não é verdade?
AD: Está tudo misturado e é uma mistura em forma de cacho: portanto, em vez de ver a emoção aqui e a razão ali, como as camadas separadas de um bolo, o que acontece na realidade é que nos encontramos numa situação em que a emoção intervém na razão e a razão modifica a emoção. É um entrelaçamento constante. É muito importante compreender que temos todas estas possibilidades – emoção, razão –, porque possuímos a capacidade de representar o nosso corpo no nosso cérebro. O nosso cérebro representa constantemente o estado do nosso organismo; está sempre aí, a cada milésimo de segundo o cérebro vai ajustando a representação do nosso corpo. E todas as coisas da nossa mente, todas as operações do nosso cérebro giram em torno do problema de manter a vida. O problema de fazer coisas… algumas automaticamente, como regular o metabolismo, e outras de uma maneira muito mais complicada, ao comportarmo-nos de um determinado modo. Por exemplo, a vida pode ser regulada ajustando quase automaticamente o metabolismo, o açúcar do sangue, o pH ou a água. Mas também é necessário fazer, de um modo activo, uma série de coisas: por exemplo, quando nos encontramos em certas condições metabólicas, é necessário ir em busca de água e de comida para conseguirmos obter mais energia. Estas actividades necessitam de um processo de conduta activa e estão orientadas, prioritariamente, para a manutenção da vida de um organismo. E todas as coisas a que possamos fazer referência – a nossa imaginação, criatividade, raciocínio e inclusivamente o nosso comportamento moral – estão baseadas nessas condições fundamentais do organismo vivo.
EP: O que preocupa o cérebro é a sua sobrevivência.
AD: Sem dúvida.
O Prémio Literário Casino da Póvoa distingue este ano um livro de poesia. Um destes 12 finalistas será anunciado como vencedor a 11 de Fevereiro, na abertura das Correntes d’Escritas, e receberá 20 mil euros.
Programa da 10ª edição das Correntes d'Escritas disponível aqui.
O Acordo Ortográfico deve ser aplicado «o mais tardar em 1 de Janeiro de 2010, a nível oficial e em todos os meios de comunicação social», garantiu à agência Lusa o ministro da Cultura, José Pinto Ribeiro.
Quando passam 200 anos sobre o nascimento de Charles Darwin e 150 sobre a publicação de A Origem das Espécies, é obrigatório visitar esta exposição. A partir de 12 de Fevereiro.
Novo lembrete: confira aqui os principais lançamentos marcados para este ano.
Roberto Saviano, autor de Gomorra, é um dos 78 escritores que participam na quinta edição da Semana de la Novela Negra de Barcelona, entre 2 e 7 de Fevereiro.
A escritora e tradutora brasileira galardoada em 2003 com o Prémio Literário José Saramago regressou ao romance (o seu terceiro publicado em Portugal). Rakushisha, editado pela Quetzal, chega às livrarias a 6 de Fevereiro.
Outros livros editados ou reeditados pela Quetzal: «A Passageira», de Andrea Blanqué, «Na Patagónia», de Bruce Chatwin, «A Oficina do Tempo», de Álvaro Uribe, «Somos o Esquecimento que Seremos», de Héctor Abad Faciolince e «366 Poemas Que Falam de Amor», organizado por Vasco Graça Moura.
Paolo Giordano vai passar por Portugal entre 4 e 8 de Fevereiro para promover o seu primeiro romance, A Solidão dos Números Primos, editado agora pela Bertrand. A tradução portuguesa do livro que venceu a última edição do prémio Strega será apresentada por Jorge Reis-Sá no Instituto Italiano de Cultura, na próxima quarta-feira.
A 36ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême começa hoje.
«Our time’s greatest man of letters – as brilliant a literary critic and essayist as he was a novelist and short story writer. He is and always will be no less a national treasure than his 19th-century precursor, Nathaniel Hawthorne. His death constitutes a loss to our literature that is immeasurable.» Philip Roth no The Times.
É o título de um ciclo de palestras que decorre no Museu do Oriente, entre Fevereiro e Abril. Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, Gil de Carvalho, Marcello Mathias e José Pedro Castanheira são os autores convidados: os livros que os influenciaram, as suas viagens e «a imagem do Oriente que construíram».
Sam Savage, Juan José Millás e Lya Luft são alguns dos primeiros nomes do catálogo da editora que regressa ao mercado editorial português. Apresentação aos livreiros e críticos marcada para a próxima semana.
Memórias do escritor norte-americano no El País, no New York Times (que disponibiliza também uma conversa gravada em Outubro de 2008), texto de Martins Amis e álbum fotográfico no Guardian e entrevista na New Yorker.
O romance vencedor do Prémio Alfaguara 2008, editado em Portugal pela QuidNovi, será lançado durante o Correntes d’Escritas (11 a 14 de Fevereiro), com a presença do escritor cubano Antonio Orlando Rodríguez.
- Colecção onde autores editados pelas Quasi apresentam um dos livros da sua vida. Adriana Calcanhotto, Alberto Gonçalves, Desidério Murcho, Eucanaã Ferraz, Fernando Ribeiro, Francisco José Viegas, João Pereira Coutinho, Maria Filomena Mónica, Michael Ruse ou Rui Lage escolhem, entre outros, O Discurso do Método, de René Descartes, A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco ou A Origem das Espécies, de Charles Darwin.
- Algumas das Palavras, colectânea de toda a poesia de Fernando Guimarães; Eucanaã Ferraz e a sua Cinemateca; e continuação das obras completas de Eugénio de Andrade, Daniel Faria, António Botto e Natércia Freire.
- As obras escolhidas de Vinicius de Moraes. O primeiro livro Poemas, Sonetos e Baladas tem edição prevista para Fevereiro.
- Novos livros de crónicas de Alberto Gonçalves e de João Pereira Coutinho.
- E ainda: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Filosofia da Religião, de William Rowe, Teatro, de Samuel Beckett, A Língua dos Eleitos, de Eduardo Pitta, Dança das Letras, de Agostinho Fernandes, O Livro Contra Deus, de James Wood, e À Superfície, de Margaret Atwood, entre outros.
Quando morri, em 1989, ainda não existia Internet. Laptops eram uma curiosidade que nenhum viajante digno desse nome aceitaria transportar. Estou a lembrar-me do Portable 386. O nome pode soar como uma piada sarcástica para vocês, que vivem em 2008, pois pesava nove quilos e incluía uma alça, como uma mochila, de forma a facilitar o transporte. Trazia um teclado separado do pesado corpo principal e não possuía bateria. Só trabalhava ligado a uma tomada.
Se em 1974 eu tivesse viajado para a Patagónia com um MacBook na minha mochila hoje não se venderiam Moleskines. Eu comprava os meus cadernos de capa preta sempre que ia a Paris, numa papelaria da Rue de l’ Ancienne Comédie. Naquela época já não se fabricavam mais Moleskines e aquela era a última loja que os tinha. Hoje vendem-se em qualquer boa livraria, seja em Nova Iorque ou no Rio de Janeiro, até mesmo em Luanda, com um papelucho lá dentro a explicar que eu, esta alma errante que agora vos escreve, tomava notas em cadernos idênticos. Pode ser que a literatura não tenha poder para mudar o mundo, mas enquanto for capaz de ressuscitar cadernos mortos não a poderemos considerar totalmente inútil.
Hoje em dia comprar um Moleskine é o primeiro passo para iniciar uma carreira literária. Repararam naquele rapaz de farta cabeleira ruiva, sentado diante de vocês, no metro, que a determinada altura puxou de um Moleskine? Ah, tremei – um escritor! A senhora alta, de rosto severo, na biblioteca, a consultar periódicos do século XIX, enquanto toma notas num elegante caderno de capa vermelha (agora fabricam-nos em várias cores)? Também ela uma escritora. Os Moleskines são igualmente muito populares entre os artistas viajantes, que confiam às suas páginas rápidas imagens dos lugares por onde passam (papel com 25 por cento de fibras de algodão, sem acidez, portanto capaz de resistir incólume durante gerações). Prosperam na Internet sítios dedicados à contribuição dos Moleskines para o progresso das artes e da literatura. Recomendo o Moleskinecity.com ou o Detour, que reúne uma notável colecção de cadernos criados por artistas plásticos, arquitectos, ilustradores e escritores.
O que mais me agrada neste eufórico e colorido regresso dos Moleskines é o facto de se tratar de um triunfo do papel sobre o digital, da tradição sobre a tecnologia – com o apoio da tecnologia. Acreditem, eu realmente gosto dos MacBook, magníficos objectos «construídos a partir de um único bloco de alumínio e cortados com precisão milimétrica», diz a publicidade; a mim parece-me a descrição de uma escultura moderna e não de um electrodoméstico. Compreendo também a paixão pela Internet, embora a ache uma forma preguiçosa de obter conhecimento, e reconhecimento. No meu tempo (só os mortos deveriam poder servir-se desta expressão), se queríamos parecer eruditos tínhamos de nos esforçar um pouco mais. De tanto nos esforçarmos, fuçando em obscuras bibliotecas, ou entrevistando veneráveis coleccionadores de porcelana, acabávamos realmente por fixar dois ou três factos relevantes e por descobrir pistas para outros tantos.
Há jovens escritores de viagens, hoje em dia, que produzem belos livros sem nunca saírem de casa. Atravessam, pelo Google Maps, os areais da Namíbia e as florestas da Malásia. Conversam longamente, pelo Skype, com índios isolados pelas cheias no Pantanal de Mato Grosso. Compram, no sítio de alguma organização não governamental, artesanato pigmeu que lhes é entregue em casa, cinco dias mais tarde, ainda a cheirar (genuinamente) a selva e a catinga. Não tenho nada contra isso, compreendam. Toda a viagem é uma invenção.
Dei-me conta de que a minha obra tem vindo a ser relançada no mercado português, com a chancela da Quetzal, em edições muito cuidadas. Fiquei feliz. Foi isso que me motivou a procurar os serviços de um psicógrafo – infelizmente de duvidosa reputação, mas, o que querem?, era o único disponível –, para vos fazer chegar estas palavras. Isso e o tédio (não existe pior prisão do que a eternidade). Enquanto continuarem a ler os meus livros, continuarei a viajar.
Crónica publicada na edição nº 75 da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Como uma sugestão nos pode levar a um bom artigo: Books Gone Wild: The Digital Age Reshapes Literature, de Lev Grossman, publicado na revista Time.
Dois inéditos de Roland Barthes (1915-1980) — Carnets du voyage en Chine (Christian Bourgois) e Journal du deuil (Seuil) —, com lançamento previsto para 5 de Fevereiro, causam polémica em França.
Há poucos meses, quando Vargas Llosa apresentava em Madrid, na Casa da América, o seu mais recente livro, os ensaios El viaje a la ficción. El mundo de Juan Carlos Onetti (Alfaguara), contou que um dia, corriam então os anos 60, dissera a Onetti que se esforçava por escrever todos os dias, com disciplina e com horário, ao que ele lhe respondeu: «Tu tens uma relação matrimonial com a literatura, […] a minha relação é adúltera.» Apesar de assim ter continuado a ser, o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) teve talento que chegasse para criar um dos universos mais originais, pessoais e coerentes de toda a literatura em língua espanhola. Infelizmente, o seu reconhecimento como um dos grandes autores hispânicos tem sido lento. E para não destoar, também em Portugal não tem tido a atenção que lhe é devida por parte dos editores. Até há bem pouco tempo encontravam-se publicados, de uma extensa bibliografia, apenas dois romances: Junta Cadáveres (Bertrand, 1976, numa brilhante tradução de Pedro Tamen) e O Estaleiro (Edições 70, 1981).
Recentemente, e aproximando-se a data do centenário do nascimento de Juan Carlos Onetti (Julho de 2009), a Relógio d’Água publicou de uma assentada um romance, A Vida Breve (considerado o primeiro romance moderno da literatura latino-americana), e uma colectânea das suas melhores histórias, Um Sonho Realizado e Outros Contos (mais de 30 anos depois, Pedro Tamen voltou a traduzir Onetti).
O mundo literário criado pelo autor uruguaio é um nebuloso universo de sonhos interrompidos, de desejos por cumprir, bastas vezes carregado de pessimismo, fatídico, em que os personagens – geralmente afundados na preguiça, na inércia ou no desespero – têm arreigada a ideia de que façam o que fizerem, no fim serão sempre tragados pelo sentimento de frustração. O universo onettiano é visitado, não raramente, por personagens amorais, por indivíduos misóginos, por proxenetas e por prostitutas sem esperança, personagens que se movem já muito perto da loucura ou do abismo do suicídio (de onde se salvam recorrendo à fantasia e ao delírio). Esta dialéctica tantas vezes recorrente entre o mundo real e o imaginário, que serve como um caminho de fuga ao desespero dos personagens, parece ter sido inspirada na própria vida do autor, que encontrou na literatura um antídoto para o seu irremediável «pessimismo congénito». Para alguns autores, incluindo Vargas Llosa nos ensaios recentemente publicados, a obra de Onetti pode ser vista como uma imensa alegoria da frustração que foi viver na América Latina durante as décadas em que foi palco das sucessivas ditaduras militares. (O próprio Onetti foi encarcerado em 1974 – em 1975 exilou-se em Espanha, de onde nunca regressou – durante a ditadura de Bordaberry, por ter feito parte do júri de um concurso literário que premiou um conto que denunciava um torcionário).
A colectânea acabada de publicar inclui histórias como «Um Sonho Realizado», de 1941 (considerado o seu primeiro conto importante), «O Inferno tão Temido», de 1957 (o mais excepcional de todos eles, de uma estranha lucidez sobre a natureza do mal) e o famoso «A Casa na Areia», de 1949 (em que pela primeira vez surge o lugar mítico onettiano, a cidade de Santa Maria – à semelhança da Macondo, de García Márquez, ou da Comala, de Rulfo – que iria alargar a sua geografia literária no ano seguinte no romance A Vida Breve). Os traços da modernidade que são perceptíveis nos textos mais curtos de Onetti mostram-no um contista de grandes recursos técnicos e estilísticos; Vargas Llosa não hesita mesmo em pô-lo ao mesmo nível de Borges, Rulfo, Fitzgerald ou Faulkner (de quem Onetti é um evidente devedor).
Quando morreu, em Maio de 1994, em Madrid, havia anos que se recusava a sair de casa; não por problemas físicos, mas porque nada mais lhe interessava para além do que ali tinha: a mulher, a cadela, e os romances negros de Chandler e de Dashiell Hammett.
Texto de José Riço Direitinho publicado na edição deste mês da LER (nº76)
Ainda faltam alguns meses, mas é sempre bom saber que António Lobo Antunes estará presente na edição deste ano da Festa Literária de Paraty.
Notícias, rumores, invenções e impropérios para ler@circuloleitores.pt
1. Os 50 autores mais influentes do século XX.
2. Dez cidades para visitar com livros debaixo do braço.
3. Charles Darwin, 200 anos depois.
4. «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.»
5. Última entrevista de António Barahona.
6. Inéditos de Fernando Pessoa.
7. John Milton por João Pereira Coutinho.
8. «O meu mal é ter uma curiosidade de puta.»
9. Entrevista Luis Sepúlveda.
10. «Já quase pareço um escritor.»
11. Entrevista Eduardo Lourenço.
12. Breve Introdução à Teoria Literária.
13. Agustina, a indomável.
14. Trinta livros do PNL.
15. Entrevista A. M. Pires Cabral.
16. Dinis Machado: «Só quis escrever um livro».
17. Retratos de um Nobel.
18. Os últimos e-mails de Stieg Larsson.
19. Os 200 anos de Edgar Allan Poe.
20. Knoxville, o território de McCarthy.
21. O bibliotecário ambulante.
22. Dez escritores europeus que (já) mereciam ser traduzidos em Portugal.
23. Entrevista Mia Couto.
24. Entrevista Vasco Pulido Valente.
25. Inéditos Vinicius de Moraes.
26. Os heterónimos de Eduardo Lourenço
Outras leituras
«Volviendo a John le Carré» (Antonio Muñoz Molina)
«A Country Without Libraries» (Charles Simic)
«The Translation Gap: Why More Foreign Writers Aren’t Published in America» (Emily Williams)
«The Godfather of the E-Reader» (Jennifer Schuessler)
«The Philosophical Novel» (James Ryerson)
«The Case of the First Mystery Novelist» (Paul Collins)
«The lost art of handwriting» (Umberto Eco)
«Our Boredom, Ourselves» (Jennifer Schuessler)
«Scandinavian Crime Wave» (Nathaniel Rich)
«When Bad Covers Happen to Good Books» (Joe Queenan)
«Tintinabulation» (Bruce Handy)
«Inside the Secret World of Literary Scouts» (Emily Williams)
«Advantage Google» (Lewis Hyde)
«Texts Without Context» (Michiko Kakutani)
«Bookmarkism: The New Ideology» (Robert Nagle)
«The Autobiography of J.G.B.» (J. G. Ballard)
«J. G. Ballard, Poet of Desolate Landscapes»
«When Writers Speak» (Arthur Krystal)
«Reading by the Numbers» (Susan Straight)
«What I heard at J.D. Salinger’s doorstep» (Tom Leonard)
«Why hasn't there been a science fiction Booker winner?» (Adam Roberts)
«Freyre, Euclides e o Brasil» (Daniel Piza)
«Las cartas íntimas de Beckett» (J. M. Coetzee)
«Entrevista Günter Grass» (Juan Cruz)
«Eudora Welty's centenary» (Paul Binding)
«Juan Benet: en un tiempo de silencio» (Manuel Vicent)
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Sumergirse en Benet» (Álvaro Colomer)
«Interview with Seamus Heaney» (Sameer Rahim)
«Robert Capa - La muerte y el azar» (Guillermo Altares)
«Why do Pynchon, Ballard and Wallace provoke such online loyalty?»
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Philip Larkin Letters» (John Shakespeare)
«Una vida absolutamente maravillosa» (Enrique Vila-Matas)
«Poética de los escaparates» (Antonio Muñoz Molina)
«In the South» (Salman Rushdie)
«Our George Steiner Problem – and Mine» (Lee Siegel)
«Poets, Academia: A Couplet in Conflict» (David Orr)