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LER

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Humor português na Casa Fernando Pessoa

O livro Antologia do Humor Português, recolha e selecção de textos humorísticos feita por Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos (Produções Fictícias), será lançado dia 11 de Dezembro, às 21h30, na Casa Fernando Pessoa, no âmbito de uma tertúlia sobre o humor com João Paulo Cotrim, Nuno Markl e Pedro Mexia, para além dos dois autores. Leituras de textos por Maria Rueff e Miguel Guilherme.

 

Rogério Casanova escreve sobre esta antologia na edição de Janeiro da LER.

«Contrabandeio morcela cada vez que venho a Lisboa»

Os convidados estão por conta própria: fazem as perguntas e decidem as respostas. E sentam-se à vontade.

A jornalista Mónica Marques estreou-se na ficção com Transa Atlântica (Quetzal). Mas nem por isso exige um estatuto diferente. Aterrou neste sofá horas depois de chegar do Rio de Janeiro. A inveja, sabe-se, é coisa mortal...

Vamos começar pelos teus pais.
Pelos meus pais?
Sim, ao fim de anos de terapia freudiana já deves  conseguir falar neles...
Está bem, mas aviso que, apesar de estar sentada neste sofá, não vou deixar que me analisem.
Aqui manda quem pode, obedece quem tem juízo. A quem foi mais difícil dar o livro a ler?
Ao meu pai, claro.
E como é que ele reagiu?
Com orgulho. Aguentou muito bem o «tranco» de se ver com uma filha que escreve sobre sexo, drogas e rock‘n’roll – e ele não sabia.
E a tua mãe?
A minha mãe é uma mulher muito prà frente. Muito mais do que eu. Já viveu imensas coisas. Adora discotecas, ir dançar, por exemplo. Agradeço-lhe o facto de nunca ter usado saias indianas, quando eu era uma adolescente de esquerda com a mania de que era intelectual. Nessa altura, eu odiava os saltos altos dela. Que eu saiba, ainda não leu o livro. E gosta muito mais de Florbela Espanca, porque tem bom gosto. Podemos mudar de assunto?
Sim. Em quem é que não podes pensar enquanto escreves?
Isso é mais ou menos o mesmo assunto.
Não é, não.
Bem, não posso pensar que a minha família me vai ler. Não posso pensar em criaturas específicas. Nem nos meus amigos.
Não parece fácil.
Mas é. Eu estou longe de quem me lê. Tenho um oceano pelo meio e uma página branca do Word à frente, é só isso que vejo.  Também gosto de escrever quando a maioria das pessoas está a dormir. Tenho a sensação de que nunca vão ler o que escrevo.
O que não pudeste fazer enquanto escrevias o livro?
Olha, principalmente tentava não ler livros muito bons. Isso é terrível para quem está a começar. Dá muita vontade de copiar o estilo. Às vezes começava a gritar de inveja. Também deixei de sair com amigos. Fiquei muito chata, obsessiva e feia.
Gostas mais de ler ou de escrever?
De ler. E gosto mais ainda de cozinhar... O meu marido diz que a coisa que eu mais devo gostar de fazer é dormir e que tenho que aprender a assumir isso.
Parece que ainda não és uma mulher resolvida.
Não. Mas já disse ao meu analista que não quero esperar até aos 60 anos.
A história do teu livro é ficcionada?
Eu não ia conseguir ficcionar o tempo todo. Não sei fazer isso ainda. Um primeiro livro tem muito de biográfico. Acho que muitos outros também terão, mas não tenho a certeza. As partes mais «hilárias» são um bocadinho autobiográficas, sim. A vida é uma piada, dá boas histórias. Depois há coisas que eu gostaria muito de ter vivido, mas não posso e aí ficcionei porque sou muito casada, muito portuguesa e muito envergonhada. Recomendo a escrita, para todos esses males.
Pensava que eras uma mulher do mundo.
[Risos.] O Pedro Rolo Duarte, antes de me conhecer, achava que eu era uma mulher do mundo. Vi-me na obrigação de  lhe baixar as expectativas e dizer-lhe que contrabandeio morcela cada vez que venho a Lisboa. Isso faz de mim uma tuga tradicionalíssima, daquelas que são gozadas no Brasil e pelas hospedeiras da TAP, que fazem caras e são tão pudicas que não aguentam um cheirinho a queijo da serra. E não sabem o que é ter saudades.
Tens muitas saudades da terrinha?
Agora vou tendo menos. Uma pessoa habitua-se a tudo e eu já me habituei a viver naquela terra de belzebu, sem supermercados onde posso encontrar 40 marcas de champô e vinte de massa folhada, sem o Dia Seguinte, na SIC, sem as auto-estradas, sem o céu azul de Lisboa...
Só isso?
Não, eu adoro comer. Quando estou lá, tenho muitas saudades de peixe. Sonho que estou com amigos a beber Planalto e a comer peixinho, ao fim da tarde, na praia da Comporta.
Qual a primeira coisa que fazes quando chegas a Lisboa?
Chamo os senhores da oficina porque o meu carro está, normalmente, sem bateria.
E  antes de voltares ao Rio de Janeiro?
Vou dançar até às tantas com amigos, pego as crianças às seis da manhã e vou directa para o avião, a ver se durmo na viagem.
Quem gostavas que lesse o teu livro e te desse uma palmadinha nas costas?
Só um? Eu tenho dificuldades com a monogamia. [Risos.] Bem, se for só um, o Rubem Fonseca, definitivamente. Se pudessem ser mais, o Arnaldo Jabor, o Joaquim Ferreira dos Santos, o Nelson Rodrigues (pode ligar lá do céu que eu atendo a qualquer hora) e o Machado de Assis. A ele já liguei. Está lá para aprovação, estou calma....
Ninguém em Portugal?
Assim de repente, não. Não, não, espera. Além do meu editor, que se fartou de me dar palmadas, o  Miguel Esteves Cardoso, claro.

 

Publicado na edição nº 75 (Dezembro) da LER. Fotografia de Pedro Loureiro.

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