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Mistério em Ouro Preto

Também no Brasil, mas em Ouro Preto, a edição deste ano do Fórum das Letras tem como tema principal «O Mistério na Literatura». Presenças já confirmadas dos brasileiros Luiz Ruffato, Moacyr Scliar e Tatiana Salem Levy, de Francisco José Viegas, do alemão Martin Brock e dos americanos Peter Robinson e William Gordon. De 5 a 9 de Novembro.

Carlos Heitor Cony sobre o Prémio Leya

O jornalista e escritor brasileiro Carlos Heitor Cony escreveu recentemente na Folha de São Paulo sobre o Prémio Leya. Eis alguns excertos: «Venho de alguns dias em Lisboa, onde mal informados de lá me colocaram no júri que avaliou os originais concorrentes ao primeiro Prêmio LeYa -novo grupo editorial que destinou cem mil euros ao vencedor. O regulamento estabelecia que seriam julgadas somente obras inéditas, embora os autores pudessem ter publicados outros textos no mesmo gênero literário. O sigilo foi absoluto, somente após a decisão dos julgadores seria aberto o envelope com o nome do vencedor. Até então, todo o material do concurso correria com um pseudônimo. Um sistema bastante usual, levado a sério, sem tramóias ou pressões, funciona com a isenção desejada para este tipo de avaliação.
O prêmio tinha caráter internacional, abrangia Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Timor Leste. E o júri também o era, com representantes de países lusófonos, sob a presidência do escritor Manuel Alegre, poeta, romancista, vice-presidente do Congresso e ex-candidato à presidência da República.
Foi impressionante o número de concorrentes: 422. Numa época em que se discute o funeral do romance e o fim do livro impresso, a vitalidade do gênero, pelo menos em língua portuguesa, continua em alta. Oito originais foram selecionados pela própria editora e submetidos a um júri em que havia apenas um gato pingado que era eu próprio.
Predominaram brasileiros nas duas fases do prêmio. Dos oito finalistas, somente um era português. E por seis a um, ganhou um mineiro de 60 anos, Murilo Antônio de Carvalho, com um longo e bem elaborado romance, "O Rastro do Jaguar". Ao comunicarmos a vitória, ele custou a entender do que se tratava, estava numa canoa, perdido num rio da Amazônia, a três dias de distância do povoado mais próximo. Informou que havia escrito o livro havia tempo, soube do concurso pela imprensa e mandara o original para ver no que podia dar. E deu.»

Cardoso Pires por Alexandre Pinheiro Torres

 

Anti-responso por José Cardoso Pires

Zé Cardoso, um escritor que lutou pela liberdade. Está lá nas suas obras, preto no branco. Só que, olhando o planeta, em bloco ou em termos globais, encontramo-nos longe dessa liberdade que implicaria viver e deixar viver, não cortar as carótidas a quem quisesse respirar.
A luta por outros graus de liberdade, no sentido metafórico que roubo à Dinâmica Racional (isto tem que ver com a gente de cultura matemática) não cessou. Que o diga a alma flutuante de Ken-Saro-Wiwa, enforcado há poucos anos pelo Governo da Nigéria só por ser um escritor em dissidência. Há Governos tirânicos que não sabem que a tirania engendra a pestilência. Wole Soyinka ganhou o Prémio Nobel da Literatura e teve de fugir. E a fatwa contra Salman Rushdie? Cancelada? Quem diz?
Há milhões e milhões de pessoas que nunca respiraram fundo. Mas, de vez em quando, há um arejo. É da Arte que esse arejo vem. No ano em que o Ditador me fez emigrar para Inglaterra, O Render dos Heróis, de José Cardoso Pires, foi levado à cena (1965) por Fernando Gusmão.
Lisboa correu em massa. Um ano nas tábuas. Só para ver o Falso Cego (Ruy de Carvalho) numa das maiores interpretações da sua vida? José Cardoso Pires a instalar-se, como Brecht, no Passado (1846), quando era óbvio que o texto era um grito do Presente que significava, na sua controlada histeria, Também Quero Ser Assunto? O nosso grande Zé Cardoso, que morto se encontra muito desperto dentro de nós, viveu as suas melhores obras de pena amordaçada, a fugir pelo longo corredor da Parábola. E o sonho de fazer Arte conforme nos dá na real gana? Uma pergunta-verdade de Epicteto, autor grego que hoje ninguém lê.
Máximas demasiado antigas? Sempre pensei que um texto que repetisse verdades já com barbas poderia ser muito novo e original. Só que hoje nota-se que a arte de escrever se confunde com a arte de se estar na corrente do que agrade ao leitor cada vez mais raro.
Na literatura do mundo em que vivemos, este ir na corrente do gosto (pimba?) não será sinal de que o escritor se deixa acorrentar como se não pudesse desfazer-se das cadeias do consumismo? É a tal liberdade? Quando se lê uma obra como The Victorian Age, de W.R. Inge, sobressaltamo-nos: «A literatura chega ao seu apogeu quando é metade arte, metade comércio.» Já o nosso genial Almeida Garrett verberava nas suas Viagens na Minha Terra, esse romance de massas, faca e alguidar, só literatura pimba. É isto. Garrett foi o nosso primeiro escritor a condenar o pimba dos Mistérios de Paris e quejandos. Mas era o que rendia: o folhetim, antepassado legítimo da telenovela.
É esta frase que eu relembro de José Cardoso Pires (para ele a ouvir-me no Panteão?): «Escrever é duro. É muito trabalho, Alexandre. Mas o que se escreve sem esforço ninguém lerá com gosto.» Magister dixit. Até porque José Cardoso Pires estava e não estava em Lisboa, cidade que ele adoptou, cantou e celebrou. Mas, no fundo, a roê-lo, a região pobre de onde saiu (Peso de Vila de Rei, Castelo Branco, Beira Interior), a que um dia chamou de «Sicília Abandonada, deserto de pedras, padres e pedintes».
Em Julho de 1997 encontrámo-nos na ilha das Flores, num minicongresso. E fomos de barco até ao Corvo. Ele pôs o tronco nu a encher os pulmões de uma forte brisa salgada que arrastava miscroscópicos grânulos de pedra negra. Na minha última palestra, com a qual ele muito se divertiu, eu falei também de Giovanni Verga e desse maravilhoso livro que é I Malavoglia (The House of the Medlar Tree na edição inglesa, já que não conheço nenhuma portuguesa). Entre os presentes, Vamberto Freitas, o escritor açoriano. Sempre se disse de Verga que escreveu o seu livro em dialecto siciliano. «O dialecto dos mendigos», comentou-me Zé Cardoso ao jantar.
Ele sempre foi à Beira Interior. Quartel-general no Fundão de António Paulouro, Arnaldo Saraiva, Eugénio de Andrade, j'en passe, e de lá escreveu: «Lisboa não é mundo [...]. Corro aqui quando posso. Para viver um pouco do mundo e esquecer a paróquia lisboeta.» A tal Beira Interior onde a pedra siciliana é já uma metáfora da sua prosa.

Texto de homenagem de Alexandre Pinheiro Torres (1921-1999), publicado originalmente na LER nº 44 (1999).