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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Dinis Machado

 

Dinis Machado, o autor de O Que Diz Molero, morreu hoje, sexta-feira. Ele era, também, Dennis McShade.

 

 

 

Dinis Machado é o autor de um dos livros que, se fôssemos mais tocados pela palavra «gratidão», elogiaríamos com mais frequência: O Que Diz Molero, publicado quando a ficção portuguesa não sabia que era portuguesa e ignorava que tinha de trocar de bandeiras, por volta de 1977. O Que Diz Molero, o livro que não envelhece, foi o primeiro grande best-seller de ficção portuguesa depois da revolução e transportava uma imensa alegria nas suas páginas. Ora, na época em que a chamada «literatura policial» não se escrevia em nome próprio (até porque, no Portugal de Salazar, não havia razões para que os romances se ocupassem de crimes lusitanos – que «não existiam»), Dinis Machado inventou um personagem admirável, o assassino Peter Maynard (devedor de Pierre Ménard, a quem Jorge Luis Borges atribui a proeza de reescrever o Quijote palavra a palavra), e um pseudónimo adequado para figurar como autor: Dennis McShade. [Do Editorial da LER 72]

 

 


O assassino Peter Maynard regressa 40 anos depois – e com ele três grandes policiais (e um inédito) do autor de O Que Diz Molero.

Dennis McShade, tal como o gémeo Dinis Machado, nasceu para ser um grande escritor. Por trás de cada historinha banal está todo um universo literário que, até à época, ninguém ainda lograra alcançar, assim tão bem disfarçado de policial de bolso», escreve José Xavier Ezequiel no posfácio de Mão Direita do Diabo, título que inaugura a reedição dos romances policiais de McShade – publicados entre 1967 e 1968 na colecção «Rififi», da Íbis, dirigida pelo próprio Dinis Machado –, pela Assírio & Alvim (com grafismo de João Fazenda), a que se juntam Requiem para Dom Quixote (nas livrarias em Outubro), Mulher e Arma com Guitarra Espanhola (Março ou Abril de 2009) e o inédito Blackpot (fim de 2009), de que publicamos, em exclusivo, o primeiro e curtíssimo capítulo.
Dez anos antes do magistral O Que Diz Molero (1977), Dinis Machado (n.1930) construía, através do seu pseudónimo literário e «disfarçado de policial de bolso», uma galeria fascinante de personagens (Lucky Cassino, Johnny Arteleso, Eddie Piano ou Charlie di Luca, só para citar alguns do primeiro volume da trilogia) que se movimentam num universo repleto de referências – das suas referências, os filmes negros dos anos 40 e 50, a obra de Orson Welles, de James Cagney, etc. –, como recorda Maria da Piedade Ferreira, editora da Oceanos, que trabalhou com o jornalista e escritor durante mais de 10 anos. E no centro desse universo está Peter Maynard – não é inocente a ligação ao conto «Pierre Ménard, Autor do Quixote», de Jorge Luis Borges –, assassino profissional a contas com uma úlcera, anjo vingador entre as sombras, justo entre os injustos e que, no intervalo dos seus monólogos, ouve Mozart e Debussy, lê Céline, Ionesco ou Walt Whitman e cita John Huston e Howard Hawks. Só não sobrevive a um triângulo amoroso: Olga, a Beretta e um copo de leite.
«Montálban pode ficar descansado», acrescenta José Xavier Ezequiel no posfácio, «nunca ninguém vai perceber que, quando Pepe Carvalho nasceu, já Peter Maynard comia pão com côdea.»  [JP] [LER 72]
 

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«Let’s get out of here»

 

[Dinis Machado recordado por Maria da Piedade Ferreira, na LER 72]

 

«Let’s get out of here», dizia ele, era a frase que mais se ouvia nos filmes americanos. Ele, o Dinis Machado, foi meu colega de trabalho e meu amigo – meu amigo ainda é – durante mais de 10 anos.

Conheci-o na Íbis, uma editora que ficava algures na Venda Nova, e onde ele era editor da revista Tintin e de livros policiais e de cowboys, nos idos de 68. Eu passei a traduzir in­ve­rosímeis livros onde o herói às vezes morria na página 20 para ressuscitar na página 53 e foi assim que entrei, pela ­porta das traseiras e pela mão do Dinis Machado, no mundo da edição. Foi também nessa colecção, com um pseudónimo «ameri­cano», que ele publicou a trilogia policial que agora ­é reeditada pela Assírio e Alvim.

 

Mais tarde partilhámos a mesma sala durante muitos anos sem eu saber que para além dos seus múltiplos interesses, que iam da literatura e do cinema, de preferência americano, à Volta a Portugal em Bicicleta, que acompanhara muitas ­vezes enquanto jornalista, ou ao futebol, ele estava a escrever um livro, de que nunca falava e que mais tarde me mostrou para saber a minha opinião. Era O Que Diz Molero e foi um choque. Um choque primeiro para mim, quando o li, e depois para o Dinis Machado, quando o sucesso lhe desabou em cima.

 

Tudo começou com um artigo do Luís Pacheco e a partir daí foi uma onda que não parava de crescer. O Dinis Machado foi, nessa altura, e com razão, um homem feliz. Ainda hoje O Que Diz Molero é lido por novas gerações e eu, que o reli há pouco, não lhe encontrei nem uma ruga de idade.

 

Mas falando ainda do Dinis Machado que então conheci, era um homem discreto, grande fumador, dado a raras mas tempestuosas fúrias, que passavam depressa, mas também a uma grande ternura pelas pessoas de quem gostava, especialmente a mulher e a filha e os amigos que vinham já da infância no Bairro Alto e que ele conservava. Era um admirador incondicional do Citizen Kane, que conhecia pormenorizadamente, de Orson Welles ou de James Cagney, dos filmes ­negros dos anos 40 e 50, e era capaz de falar deles entusias­ticamente. Numa época em que a minha geração se interessava par­ticularmente pela literatura e pelos filmes franceses, ele mantinha-se fiel às suas paixões de sempre.

Aprendi muito com ele e recordo com muita saudade os tempos em que convivíamos diariamente, os mais felizes ­como os mais difíceis, os do sucesso e os da ressaca do sucesso.

Um beijo amigo, Dinis Machado e let’s get out of here!

 

Crónica de José Eduardo Agualusa

                       

                      FERNANDO PESSOA RESPONDE A ANA MOURA

Ana Moura gostava que eu fosse vivo. Vivo, escreveria versos para fados que depois ela cantaria. Disse-o recentemente em entrevista ao jornal Público. Eu, que nem tenho a certeza de ter estado vivo alguma vez, da mesma forma que não tenho a certeza, agora, de estar realmente morto, escreveria de boa vontade os tais fados, contando que fosse numa taberna – e não pelos fados, Ana, mas pelo vinho.
Estar ao serviço de Ana Moura, na Mouraria, nem sequer me parece fado atroz, ao contrário de tantos outros que me têm imposto desde que naquele dia 30 de Novembro de 1935 me deixei arrebatar pelo sonho e parti (sempre gostei de sonhar; sonhar sem o receio de despertar, eis a perfeição do sonho). A minha silhueta passeia-se hoje por toda a parte, e serve, sem cobrar nada, a tudo e a todos: promove campanhas turísticas, assinala as retretes masculinas, frequenta galerias de arte e livros para crianças, na sua maioria muito maus. Os meus versos servem a todos os fins. Ouço-os nas bocas de cardeais e de maçons, nas bocas de mulheres virtuosas e de putas; nas bocas de generais e de outros comprovados canalhas. Com os meus versos se contestam políticas e se defendem as mesmas. Com os meus versos exaltam uns o futuro da língua portuguesa e outros o lamentam.
Ah, o tédio de ser Pessoa. Fui-o por distracção, é verdade, como as pedras no seu sossego de pedras, e a erva crescendo e sendo erva, e passarem pássaros neste límpido céu de Verão. Tentei ser muitos para escapar de ser nenhum, e não consegui.
Chama-se alma ao interior oco de uma arma de fogo, que vai da parte anterior da câmara da carga até à boca – ou seja, é por onde sai a bala. A minha alma foi sempre algo assim, um espaço oco por onde disparava os sentimentos com que atingia, ou tentava atingir, o coração dos outros.
Ninguém consegue tornar-se um bom cantor, um bom dançarino, um bom pintor, um bom amante enquanto não se esquece de que está cantando, dançando, pintando ou amando. Entregar-se implica esquecer-se de si. Eu nunca me entreguei por completo à vida. Pensei-a sempre, e pensar demais a vida é não a viver.
Talvez tudo isto lhe pareça contraditório e confuso, e ainda bem. É contraditório e confuso e além disso estou morto. Bastante morto. Não exija coerência a um morto. A um morto exige-se que se decomponha o mais depressa possível, ou seja, que se desorganize. Estar morto é render-se por fim à entropia, desistir. Ah, como sabe bem desistir! Ao longo da vida preparei-me muito para a morte. Fui um campeão em desistência. Comecei, bastante jovem, por desistir do amor e da aventura; desisti das mulheres e depois da humanidade inteira (que é o que acontece normalmente aos homens que desistem das mulheres); desisti do dinheiro e da glória; desisti de uma carreira, qualquer carreira, inclusive a literária. Quando por fim a morte me estendeu a mão foi já sem lastro, sem um pensamento a prender-me, que me deixei ir.
Ria-se, Ana, ria-se comigo, de todos aqueles que a criticam por ter dito que me queria ao seu serviço. Lembre a essa gente aquela outra moira que cativou Camões, sendo dele escrava, e doce e bárbara, e de como tal sujeição só favoreceu a poesia.
Existe em Lisboa uma casa com o meu nome. Lá dentro há bonecos com o meu rosto, e alguns dos livros da minha biblioteca. Encontrará também todos os títulos que após a minha morte se foram publicando, tentando juntar os versos que deixei dispersos. Dir-lhe-ão que pode cantar esses versos, pois tem versos para cantar até ao fim da vida. É verdade. E não, não é verdade. Não são os versos que escrevi para si. São os versos que escrevi para si.
Ah, Ana, cante você a dor que minha alma teve e será sua essa dor – não a invejo. Queria a sua alma para sentir os sentimentos meus que você com tanta verdade canta, mentindo. Mas queria-a, sobretudo, para os não sentir.


Crónica publicada na revista LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Saramago: «A esquerda não pensa, não age, não arrisca um passo»

«Eu, que entretanto tinha feito outra descoberta, a de que Marx nunca havia tido tanta razão como hoje, imaginei, quando há um ano rebentou a burla cancerosa das hipotecas nos Estados Unidos, que a esquerda, onde quer que estivesse, se ainda era viva, iria abrir enfim a boca para dizer o que pensava do caso. Já tenho a explicação: a esquerda não pensa, não age, não arrisca um passo. Passou-se o que se passou depois, até hoje, e a esquerda, cobardemente, continua a não pensar, a não agir, a não arriscar um passo. Por isso não se estranhe a insolente pergunta do título: “Onde está a esquerda?”  Não dou alvíssaras, já paguei demasiado caras as minhas ilusões.»

 

Excerto do texto publicado ontem por José Saramago no blogue O Caderno de Saramago.

«Nascer e morrer em Outubro»

Título do texto de Isabel Lucas sobre José Cardoso Pires publicado hoje no Diário de Notícias. «Outubro, sempre Outubro. Nasceu em Outubro, faz hoje 83 anos. Morreu em Outubro está quase a fazer dez anos. Em Dezembro de 1997, pouco depois de ser o primeiro romancista a vencer o Prémio Pessoa, anunciava-me numa entrevista um novo romance para o Outubro seguinte. Foi nesse Outubro seguinte, o Outubro de 1998, que morria, após quatro meses de coma, às duas e meia da madrugada do dia 26, sem que nenhum romance novo tivesse saído.»

Cardoso Pires às voltas por Lisboa, 2

Programação completa da Câmara Municipal de Lisboa dedicada aos dez anos da morte de José Cardoso Pires: exposições, ciclo de conferências, documentários, etc.

 

António Lobo Antunes e Júlio Pomar recordam hoje o amigo na Casa Fernando Pessoa, às 18h. Moderação de Inês Pedrosa.

 

Fotografia de João Francisco Vilhena publicada na edição nº 28 da LER (Outono de 1994).

«Os Estados Unidos não participam no grande diálogo da literatura? Bullshit»

Giles Foden, romancista e professor de Escrita Criativa na University of East Anglia, responde no The Guardian à entrevista polémica de Horace Engdahl, secretário permanente da Academia Sueca: «The proper response to Engdahl is a word conceived in America but universally understood: bullshit.»

 

A Editorial Magnólia publicou em 2007 o best-seller deste autor: O Último Rei da Escócia.

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