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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Crónica de Francisco Belard

 

 

                                                            ESCRAVOS

 

Quando nos começamos a esquecer de um assunto, há uma comemoração: artigos, livros, exposições. É útil para muitos factos e figuras, à falta de melhor mecanismo. É o caso da história da escravatura, que não se sabe quando começou (talvez logo à saída do Paraíso), mas que não acabou. Em 2007 celebrou-se o bicentenário da abolição do tráfico negreiro pelo Reino Unido, no século XVIII o maior responsável pelo mesmo, mas que no século seguinte o proibiu e fez com que outras potências marítimas seguissem o exemplo. Além de argumentos morais, religiosos e económicos, os britânicos usaram a armada mais forte do mundo, apesar disso só eliminando uma percentagem baixa do tráfico no século XIX. Os EUA acabaram com a escravatura interna após a Guerra Civil e o Império do Brasil pôs-lhe termo oficialmente em 1888.
As consequências desse sinistro comércio, e do «modo de produção» a que se destinava, não acabaram de repente por via legislativa e acções de polícia. Basta observar algumas sociedades americanas, principais destinatárias da hemorragia a que a África foi sujeita (tendo a procura estimulado a colaboração de reis e chefes locais), para verificar diferenças de estatuto social e político em que ainda se repercute a escravatura, muito depois de proclamada a igualdade jurídica. Mas a mudança nas instituições e práticas britânicas a partir de 1807 abalou fortemente um sistema em que, até 1838, as colónias inglesas das Caraíbas tinham uma das maiores concentrações de escravos das Américas. Até então, europeus e americanos brancos tendiam a achar natural a existência de escravos nos seus países e colónias. Isto e muito mais é narrado por James Walvin (da Universidade de York) em Uma História da Escravatura (Tinta-da-China, 2008, tradução de A Short History of Slavery, 2007). Acentua o papel das campanhas abolicionistas, mas percorre o fenómeno desde a Antiguidade «clássica» e a Idade Média, fala da escravatura no islão (o que é raro, mesmo em capítulo breve) e documenta como objecto central o que se passou no Atlântico Norte nos séculos XVIII e XIX. No epílogo lembra que a escravatura se mantém em países africanos e asiáticos e (inflectindo a sua posição inicial de historiador) que «a Alemanha nazi» e «a Rússia estalinista do tempo da guerra» não só usaram
trabalho escravo como os seus regimes assentaram largamente nele. A ignomínia do sistema esclavagista moderno, a que se associaram Estados da Europa Ocidental (na Oriental existiu outra espécie de servidão) e seus continuadores nas Américas, é exemplificada sem excessos sensacionalistas. A descrição de como os escravos eram transportados e a referência ao cheiro horrível dos navios negreiros bastam para elucidar-nos. Momentos do processo, ecos actuais e sequência comemorativa surgem no dossier que a revista África 21, com sede em Luanda e à venda em Portugal, publicou no nº 9 (Setembro de 2007), com artigos de Conceição Lima, Itamar Souza, João Carlos, Jonuel Gonçalves e António Melo. Alude a museus e «lugares de memória» em diversos países, sobretudo na África Ocidental, em que o passado português não pode ficar bem. É o caso do memorial na ilha de Gorée, no Senegal.
É forçoso notar que os discursos africanos sobre a escravatura costumam limitar-se aos crimes europeus, omitindo a acção de países muçulmanos, «árabes» ou não, no comércio negreiro e na servidão em geral. A escravatura, anterior ao islão, expandiu-se com este, como observa Walvin, e em vastas áreas manteve-se até ao século XX e mesmo XXI (a Mauritânia só a aboliu em lei de Agosto de 2007). Marc Ferro, em pelo menos dois livros, já comentara a frequente omissão de que o tráfico de negros para o mundo árabe precedera de sete séculos o iniciado por europeus no século XV. Livros como White Gold, de Giles Milton (2004), relatam o comércio magrebino de escravos europeus brancos e de africanos negros, até ao século XIX. As capturas chegavam a ser feitas no litoral da Irlanda (ou na nossa ilha do Porto Santo). Mas o estudo mais surpreendente, amplo e actualizado é porventura o do antropólogo e islamólogo Malek Chebel, L’Esclavage en Terre d’Islam (Setembro de 2007), sobre «um tabu bem guardado». Essas obras não são o reverso da medalha referida pela competente síntese de Walvin; são o resto dela.

 

Crónica publicada na edição de Setembro da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Livro da trilogia de Llansol lançado em Espanha

A Restante Vida, segundo volume da trilogia Geografia de Rebeldes, de Maria Gabriela Llansol, acaba de ser lançado em Espanha na colecção de ficção da editora Cultiva Comunicación.

 

«Provavelmente, a Gabriela Llansol será – penso eu – o próximo grande mito literário português. A escrita dela é fulgurante. Não há nada que se possa comparar àquilo». Eduardo Lourenço em entrevista publicada na edição de Setembro da LER.

 

Nota: Por lapso, os títulos dos livros aqui mencionados não eram os correctos. A correcção está feita. Pedimos desculpas aos nossos leitores.