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Editorial

Opinião

Uma parte da guerra

Francisco José Viegas [*]


A Feira do Livro de Lisboa faz parte da paisagem da cidade. Por mais que nos irritemos com a sua organização, com a sua eventual desorganização, com a chuva da primeira semana de Junho e com a repetição do seu modelo tradicional – a Feira do Livro é um momento especial do calendário da cidade.

Ao longo de 77 anos, houve polémicas que a marcaram com alguma regularidade. Essas polémicas foram inevitáveis depois da criação da União dos Editores Portugueses porque duas associações (a APEL e a UEP) passaram a disputar o mesmo território.

Durante dois anos (2006 e 2007) coube-me alguma responsabilidade na Feira enquanto director da Casa Fernando Pessoa que, de responsável pela “programação cultural” em anos anteriores passou também a entidade organizadora por delegação de competências da Direcção Municipal de Cultura. Todos os envolvidos sabiam, em Maio de 2006, que aquele era o último ano em que a Feira iria seguir o figurino tradicional ou o seu modelo histórico; APEL e UEP foram avisadas de que havia alterações em 2007.

É preciso perceber porquê. Em primeiro lugar, era preciso introduzir alterações substanciais no modelo de funcionamento da Feira – no tipo de stands, no horário, nos serviços de apoio (restaurantes, bares, locais para a imprensa, etc), na “animação cultural” e na promoção. APEL e UEP estavam de acordo nisso. Em segundo lugar, não era possível prolongar a vida da Feira com as duas associações de costas voltadas e ignorando-se com antipatia – até porque havia processos em tribunal e acusações mútuas permanentes, uma situação incomportável. Em terceiro lugar, se cabia à CML (através da Direcção Municipal de Cultura e da Casa Fernando Pessoa) um papel tão decisivo, então valia a pena tentar mudar as coisas.

Em Setembro de 2006 elaborei o primeiro documento sobre a Feira do Livro; ambas as associações concordaram com ele. Durante seis meses tentámos o acordo, que parecia impossível, entre a CML, a APEL e a UEP. Nesse tempo, e confrontados com a agonia da administração municipal (que não tinha força política, não tinha gente suficiente e, finalmente, não tinha dinheiro), fomos forçados a alterar o documento de princípio. Explica-se sumariamente o novo rumo: a CML tinha pago, pela Feira de 2006, cerca de um milhão de euros. Era um número assustador. O pavilhão central era um sovedouro de dinheiro. A Casa Fernando Pessoa disponibilizava quatro funcionários, durante largos meses, só para organizar a Feira, e durante as duas semanas em que ela durava, quase se transferia para o Parque Eduardo VII.  A “animação cultural” acabava por distrair os compradores de livros e por custar dinheiro inútil. A CML nunca obteve retorno da Feira. Por isso, alterou-se o modelo e cada um faria aquilo que sabia fazer melhor: a CML disponibilizava o espaço, pagaria licenças de ocupação, fornecia infraestruturas e policiamento, trataria da promoção e entregaria 200 mil euros às associações; com esse dinheiro, as duas associações, em conjunto, reuniriam os editores e tratariam da “animação cultural”. Foram necessárias muitas reuniões com a APEL e a UEP, em quem vi sempre vontade de colaborar. Tanto a Casa Fernando Pessoa como o Director Municipal de Cultura, Prof. Rui Pereira, apesar da desordem que na época reinava na CML, fizeram tudo o que tinham prometido. As associações entenderam-se e os processos em tribunal foram resolvidos. A Feira fez-se. Sinceramente, foi um dos melhores anos da Feira, com as duas associações reunidas. Nem choveu tanto.

Estranho, por isso, que este ano tenha regressado a balbúrdia. É um cenário novo, que tem a ver com a existência de um meio editorial forte e naturalmente ambicioso – mas que deve concorrer ao espaço público da Feira conforme as regras existentes, a menos que elas sejam alteradas em consenso. O ideal seria, evidentemente, que cada editor (e, no futuro, cada grupo editorial, uma vez que o mercado mudou) planeasse os seus stands com inteira liberdade e que o regulamento da Feira fosse mais maleável e a sua promoção mais festiva. Mas não me parece que isso seja possível em confronto. E esse confronto não é senão uma sombra de outro combate; o da guerra dentro da estrutura cooperativa. É só uma parte da poeira que anda no ar.

 

* Director da revista “Ler”

Feira do Livro. Reacções

Sobre a decisão da Câmara de Lisboa, algumas reacções, da edição de hoje do Público:

«Também não se pode dar uma licença de venda de castanhas para a mesma esquina a duas pessoas diferentes», exemplificou o vereador eleito pelo Bloco de Esquerda José Sá Fernandes.

António Costa: «O projecto da UEP foi indeferido por ser incompatível com o projecto concorrente.»

APEL reage oficialmente

Do comunicado enviado pela APEL às 23h30 de ontem:
«Lamentavelmente, e apesar dos nossos esforços, não foi possível a renovação do acordo com a UEP, que serviu de base à organização das Feiras do Livro de Lisboa e Porto de 2003 a 2007, fundamentalmente pela atitude dos que insistem numa lógica de defesa dos seus objectivos de marketing em detrimento do espírito que define a essência e a própria razão de ser da Feira do Livro de Lisboa.
Renovamos o nosso compromisso no sentido da organização da 78ª Feira do Livro de Lisboa num quadro da mais ampla participação dos editores e livreiros, independentemente da sua filiação associativa, porque, como sempre afirmámos, a Feira do Livro é da cidade, dos editores, dos livreiros, dos autores e dos leitores, devendo ser um espaço de encontro entre todos aqueles que amam o livro.»

UEP reúne hoje

A direcção da União dos Editores Portugueses (UEP) reunirá hoje às 22h00 a fim de «tomar conhecimento» da decisão da Câmara Municipal de Lisboa. Contactado pelo LERBLOG,Carlos Veiga Ferreira, presidente da UEP, anunciou «para a madrugada de hoje ou para as primeiras horas da manhã» uma reacção oficial ao despacho da vereadora da Cultura, Rosalía Vargas. O documento foi recebido na sede da UEP, por fax, ao final da tarde de hoje.

Câmara de Lisboa decide Feira do Livro (Actualização 2)

continuação    É ao abrigo do Despacho n.º 474/P/2007, de 20 de Agosto, publicado no Boletim Municipal n.º 705, de 23 de Agosto de 2007, que a vereadora tomou a decisão de «deferir o pedido da APEL e indeferir o pedido da UEP, nos termos em que esta o formulou».
Com este despacho, Rosalía Vargas encarregou o Director Municipal de Cultura, Rui Pereira, de iniciar os procedimentos administrativos regulares para o início dos trabalhos, cedendo o Parque Eduardo VII à associação.
Como nota final, o despacho da vereadora da Cultura assinala que o Director Municipal de Cultura «deverá, ainda, diligenciar junto da entidade organizadora pela participação abrangente dos editores e livreiros portugueses na Feira do Livro de Lisboa». Em causa estará a presença, na Feira, de autores publicados pelas editoras do grupo LeYA, caso estas se recusem a participar no evento.

Câmara de Lisboa decide Feira do Livro (Actualização)

(Última Hora 19h12) A Câmara Municipal de Lisboa decidiu atribuir à APEL a organização da Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII.


Tal como o LERBLOG referia ontem em primeira mão, o despacho da vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, Rosalía Vargas, decidia sobre a realização da Feira do Livro de Lisboa. O texto, a que o LERBLOG teve acesso considera que «no presente ano, e apesar da mediação da Câmara Municipal de Lisboa, a APEL e a UEP não acordaram na organização conjunta da 78.ª Feira do Livro», ao contrário do que acontecera no ano passado, quando as duas associações tomaram a seu cargo a Feira, sob mediação da Casa Fernando Pessoa.

A 13 de Março, a APEL solicitou à CML a «cedência da utilização do Parque Eduardo VII, desde junto à Praça Marquês de Pombal até à Av. Cardeal Cerejeira», para a realização da Feira do Livro de Lisboa. No dia 8 de Abril, a UEP pediu, por seu lado «uma das alamedas» do Parque Eduardo VII para organizar «a Festa do Livro, evento a ter lugar em simultâneo com a Feira do Livro». 

No seu despacho, Rosalía Vargas considera que «não havendo acordo entre as duas instituições e não sendo possível autorizar a ambas a utilização simultânea do mesmo espaço», a Câmara teria de decidir «com base nos critérios comuns à utilização do espaço público, deferindo o pedido que deu entrada em primeiro lugar e que corresponde à realização da Feira do Livro de Lisboa» [continua...]