MADE IN PORTUGAL
Uma entrevista com Peggy Whitson, primeira mulher a comandar a Estação Especial Internacional (ISS), despoletou-me da memória o recente convívio aqui na Brown em casa de Ruth Simmons (que também vê com frequência atrelado ao seu nome o designativo de «primeira mulher negra reitora de uma universidade Ivy League»). Era festa para celebrar os doutorandos honoris causa deste ano. A simplicidade digna, mailo desconcertante à-vontade desses encontros, não deixam nunca de me impressionar, a mim nado e criado no formalismo cinzentão lusitano, recuperado depois do 25 de Abril em novos moldes, é certo, mas ressuscitado para durar. No laudatório dos honorandos por um membro da universidade, e nos agradecimentos daqueles, sempre o humor put down e self-deprecating. Tudo em tom chão, como na referência ao trabalho de Shih Choon Fong, pioneiro em Engenharia Fractal – «o que quer que isso seja», o apresentador a acrescentar – e depois o honoris causa, hoje reitor da National University of Singapura, a explicar que em criança ficava muito triste quando se lhe quebravam os brinquedos e, por isso, passou 15 anos na Brown a investigar o problema. Ou Robert Redford, laureado pelo seu papel de defesa do ambiente, ao chegar-lhe a vez de agradecer, admitindo não saber falar em público porque todas as frases dos filmes que o lançaram nos olhos do mundo foram escritas por outros. Chegou a vez da geofísica planetária Maria Zuber, antiga aluna da Brown, hoje investigadora no MIT e responsável por um projecto que faria aterrar uma nave em Marte no dia seguinte. Falou das lutas íntimas por que uma mulher passa quando tem filhos pequenos e quer ao mesmo tempo manter uma carreira científica a exigir entrega incondicional. Que um dia, atormentada, à mesa com os filhos lhes pôs a questão: ficar mais tempo em casa ou continuar a dedicar-se à carreira científica. O mais novo saltou logo: «’Tás louca! Na minha escola eu sou o único com uma mãe que dispara raios laser para o espaço!»
Esta crónica ia prosseguir no tema da mulher na ciência, mas também pode legitimamente enveredar por outro rumo, como o de continuar com histórias de doutoramentos honoris causa de que me recordo. Há muitos anos foi a vez de Mário Soares. O único português até agora, se não incluirmos o luso-descendente Craig Mello, Nobel de Medicina no ano passado e ex-aluno. A universidade quis reconhecer o papel de Mário Soares na consolidação do processo democrático em Portugal. No mesmo ano, Stevie Wonder ganhou um honoris causa em Música. No colorido e alegre cortejo College Street abaixo, Stevie Wonder e o nosso ex-Presidente, ambos com a beca da Brown, barrete e tudo, caminharam de braço dado, o cantor cego completamente entregue à confiante firmeza de Soares. No outro dia, o Providence Journal trazia, em parangonas e na primeira página, uma fotografia dos dois.
Eu estava de saída para Lisboa dali a pouco e fui à redacção do jornal indagar se me cediam uma cópia. (Eram tempos arcaicos, pré-internéticos, quando tudo tinha de ser em papel e por mão própria ou correio postal.) Sim, senhor, com muito gosto, autorização plena para reproduzir a dita. Levei-a para Lisboa e fui oferecê-la a amigos no Diário de Notícias, onde eu era então colaborador regular, levado pela mão do Mário Bettencourt Resendes (coincidência que, como é óbvio e o leitor acredita piamente, nada tinha a ver com o facto de sermos patrícios da mesma ilha dos Açores). Dias depois, saía em destaque na última página, creio que com honras de «foto da semana». E não demorou muito para eu receber em retorno uma boca, que rodou célere entre a má-língua portuguesa – a legenda a incluir pelo jornal devia ter sido simplesmente: «Um cego a guiar outro cego.»
Injusta, muito injusta mesmo. Mas – convenhamos - uma boa e bem portuguesa piada, autêntica, made in Portugal, na melhor tradição do nosso escárnio e mal-dizer, em que somos mestres com o calo de 800 anos de experiência.
Pena não haver comprador para essa nossa produção.
Crónica publicada na edição de Setembro da LER.
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