Domingo, 14 de Setembro de 2008
Crónica de Onésimo Teotónio de Almeida
14 Setembro, 2008

                                                                



MADE IN PORTUGAL

 

Uma entrevista com Peggy Whitson, primeira mulher a comandar a Estação Especial Internacional (ISS), despoletou-me da memória o recente convívio aqui na Brown em casa de Ruth Simmons (que também vê com frequência atrelado ao seu nome o designativo de «primeira mulher negra reitora de uma universidade Ivy League»). Era festa para celebrar os doutorandos honoris causa deste ano. A simplicidade digna, mailo desconcertante à-vontade desses encontros, não deixam nunca de me impressionar, a mim nado e criado no formalismo cinzentão lusitano, recuperado depois do 25 de Abril em novos moldes, é certo, mas ressuscitado para durar. No laudatório dos honorandos por um membro da universidade, e nos agradecimentos daqueles, sempre o humor put down e self-deprecating. Tudo em tom chão, como na referência ao trabalho de Shih Choon Fong, pioneiro em Engenharia Fractal – «o que quer que isso seja», o apresentador a acrescentar – e depois o honoris causa, hoje reitor da National University of Singapura, a explicar que em criança ficava muito triste quando se lhe quebravam os brinquedos e, por isso, passou 15 anos na Brown a investigar o problema. Ou Robert Redford, laureado pelo seu papel de defesa do ambiente, ao chegar-lhe a vez de agradecer, admitindo não saber falar em público porque todas as frases dos filmes que o lançaram nos olhos do mundo foram escritas por outros. Chegou a vez da geofísica planetária Maria Zuber, antiga aluna da Brown, hoje investigadora no MIT e responsável por um projecto que faria aterrar uma nave em Marte no dia seguinte. Falou das lutas íntimas por que uma mulher passa quando tem filhos pequenos e quer ao mesmo tempo manter uma carreira científica a exigir entrega incondicional. Que um dia, atormentada, à mesa com os filhos lhes pôs a questão: ficar mais tempo em casa ou continuar a  dedicar-se à carreira científica. O mais novo saltou logo: «’Tás louca! Na minha escola eu sou o único com uma mãe que dispara raios laser para o espaço!»


Esta crónica ia prosseguir no tema da mulher na ciência, mas também pode legitimamente enveredar por outro rumo, como o de continuar com histórias de doutoramentos honoris causa de que me recordo. Há muitos anos foi a vez de Mário Soares. O único português até agora, se não incluirmos o luso-descendente Craig Mello, Nobel de Medicina no ano passado e ex-aluno. A universidade quis reconhecer o papel de Mário Soares na consolidação do processo democrático em Portugal. No mesmo ano, Stevie Wonder ganhou um honoris causa em Música. No colorido e alegre cortejo College Street abaixo, Stevie Wonder e o nosso ex-Presidente, ambos com a beca da Brown, barrete e tudo, caminharam de braço dado, o cantor cego completamente entregue à confiante firmeza de Soares. No outro dia, o Providence Journal trazia, em parangonas e na primeira página, uma fotografia dos dois.


Eu estava de saída para Lisboa dali a pouco e fui à redacção do jornal indagar se me cediam uma cópia. (Eram tempos arcaicos, pré-internéticos, quando tudo tinha de ser em papel e por mão própria ou correio postal.) Sim, senhor, com muito gosto, autorização plena para reproduzir a dita. Levei-a para Lisboa e fui oferecê-la a amigos no Diário de Notícias, onde eu era então colaborador regular, levado pela mão do Mário Bettencourt Resendes (coincidência que, como é óbvio e o leitor acredita piamente, nada tinha a ver com o facto de sermos patrícios da mesma ilha dos Açores). Dias depois, saía em destaque na última página, creio que com honras de «foto da semana». E não demorou muito para eu receber em retorno uma boca, que rodou célere entre a má-língua portuguesa – a legenda a incluir pelo jornal devia ter sido simplesmente: «Um cego a guiar outro cego.»


Injusta, muito injusta mesmo. Mas – convenhamos - uma boa e bem portuguesa piada, autêntica, made in Portugal, na melhor tradição do nosso escárnio e mal-dizer, em que somos mestres com o calo de 800 anos de experiência.


Pena não haver comprador para essa nossa produção.

 

Crónica publicada na edição de Setembro da LER.

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publicado por Ler às 07:30
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6 comentários:
De nuno magalhães a 14 de Setembro de 2008 às 15:05
"despoletar"??????? Mas não há edição?

De Onésimo a 14 de Setembro de 2008 às 15:43
Vasco Graca Moura, confrontado com idêntico reparo quando usou o termo, respondeu. Como o texto é longo, aqui vai o endereço:

http://www.ciberduvidas.pt/controversias.php?rid=887

Onésimo

De Corruptela à janela a 15 de Setembro de 2008 às 18:42
Não ficaria mal ao Graça Moura admitir que também erra, como todos, pois então.

Talvez ele não se queira incomodar em saber o que é uma espoleta; convicção e razão andam tantas vezes desencontradas.

A resposta é uma bela produção, mas o tiro é completamente ao lado.

Mas, se o Natal é quando o Homem quiser, assim seja também o significado de despoletar.

De nuno magalhães a 16 de Setembro de 2008 às 22:13
O meu irmão tem um amigo que é pedreiro e diz tijóis. Bem sei que não passou pela Escola do Exército como os oficiais de Graça Moura (ou o meu próprio pai, também militar e ex-aluno do Paço da Rainha) mas enquanto justificação parece-me tão boa como a dele ou a dos médicos que oscilam entre a leucémia e a leucemia. Mas deixe lá, Onésimo, que até gosto muito de o ler. Sai do credo repetido e batido de outros cronistas da revista que deixei de comprar ao terceiro número.

De Luís Graça a 15 de Setembro de 2008 às 02:08
Se durante muitos anos eu usei o termo DESPOLETAR em sentido errado, pelo menos estive na boa companhia do Vasco Graça Moura e do Onésimo Teotónio de Almeida.

O texto do Vasco Graça Moura é bastanta clarificador e muito completo. O problema é mesmo este: usa-se despoletar com o mesmo significado de espoletar.

Quando cheguei ao diário desportivo O JOGO, esta foi uma das questões que debati com a copy da altura, com dicionários metidos na questão e tudo.

Resultado: acho que deixei de usar a palavra. Fiquei traumatizado com a discussão.

Quanto à crónica do Onésimo, é saborosíssima, como sempre.

Lembrava-me lá eu de que o Mário Soares tinha andado nestas vidas com o Stevie Wonder. Não consta que passasse a fazer as suas grandes caminhadas de praia, no Vau, a cantar "You are the sunshine of my life", mas nunca se sabe...

De nuno magalhães a 16 de Setembro de 2008 às 19:44
Usa-se despoletar com o mesmo sentido de espoletar, da mesma maneira que já se aceita túlipa e tulipa, dióspiro e diospiro, púdico e pudico. Tantas vezes vai o dicionário à fonte que acaba por se rasgar. Enfim, quando se tem de aturar que se aguarda vez em filas por as bichas terem sido importadas dos trópicos com outras tendências, não admira que hábitos façam monges.

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