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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

O novo mundo

No Jacobin Mag, interessante artigo sobre a retribuição aos criadores no mundo do digital: «Artists are expected to reinvent themselves, turn to crowdfunding, and hustle their way out of their predicaments. But we cannot crowdfund our way to broad public support for culture or to more sustainable approaches to cultural production. We need to move from narrating individual struggles to discussing community-wide challenges and collective solutions.»

Editoras indie

No Observador, Joana Emídio Marques sobre as editoras indie portuguesas: 

«É um interessante paradoxo o crescimento destas pequenas chancelas nas margens do crescimento dos conglomerados editoriais como a Porto Editora, a Leya, a Babel, ou a viragem para o puro lixo editorial de editoras que já foram importantes, como a Presença. Para enfrentar os bestsellers de capas kitsch que cegam os olhos dos leitores incautos à entrada das livrarias, existe actualmente todo um admirável mundo novo que dá pelos nomes de Douda CorreriaDo Lado EsquerdoA Tua MãeNão EdiçõesMedulaEdições 50 KgArtefactoLíngua MortaAvernoParsifalEdições Sem NomeEdições Guilhotina, AlambiqueCompanhia das IlhasTea For OneMariposa AzualChili Com CarneClube do InfernoPierre von Kleist The Unknown BooksPierrot le FouHomem do SacoOficina do CegoAbysmo…»

 

Tome nota: os próximos prémios franceses

Este ano, catadupa de anúncios de prémios literários franceses entre 29 de outubro e 5 de novembro. Tome nota: 

Académie Française. Anúncio: 29 outubro. [1-º shortlist a 1 de outubro; 2.ª shortlist a 15 de outubro]

• Décembre. Anúncio: 2 novembro. [1.ª shortlist a 15 de outubro; 2.ª shortlist a 20 de outubro]

• Goncourt. Anúncio: 3 novembro. [1.ª shortlist a 3 de outubro; 2.ª shortlist a 27 de outubro]

• Renaudot. Anúncio: 3 novembro. [1.ª shortlist a 6 de outubro; 2.ª shortlist a 27 de outubro]

• Femina. Anúncio: 4 novembro. [1.ª shortlist a 17 de setembro; 2.ª shortlist a 2 de outubro; 3.ª shortlist a 20 de outubro]

Médicis. Anúncio: 5 novembro. [1.ª shortlist a 10 de setembro; 2.ª shortlist a 7 de outubro]

Grande ideia

  Comentário  Há uma «nova batalha» no mundo da crítica literária: a do género. Uma organização americana que promove a representação das mulheres na literatura (Vida, Women in Literary Arts) analisou 15 publicações literárias influentes no mundo anglo-saxónico e chegou à conclusão de que, muito embora as mulheres dominem as listas de best-sellers (de J.K. Rowlling e Donna Tart a Hilary Mantel), apenas 30 por cento das críticas são assinadas por mulheres. Um outro estudo (no Reino Unido) diz que as mulheres são responsáveis pela compra de dois terços de todos os livros publicados, e que 50% delas são «leitoras ávidas» («heavy readers»), contra apenas 26% por parte dos homens. A «representação» não me diz muito – mas estes números explicam por que razão as mulheres têm hoje mais sucesso nas universidades e na vida profissional: leem mais.

O documento circulou por todo o mundo e era relativamente pacífico; mas a capacidade de o politicamente correto cair no albergue da palermice é sempre capaz de nos surpreender. O Vida, na semana seguinte, exarou outro documento a defender mais: que os escritores, independentemente do género, não devem apenas criar personagens femininas – mas pô-las, nos romances, a «dizerem e fazerem coisas importantes». Que grande ideia. Estaline chegou a corrigir páginas de Gorki enquanto decidia que temas deviam os escritores tratar; na China, o governo manda os escritores para os arrozais para escreverem sobre os rouxinóis e a vida maravilhosa e saudável dos camponeses e as suas lições ancestrais; as feministas americanas mandam implantar neurónios artificiais. F.J.V.

Kindle & Amazon: um novo conceito de obra literária, ou como destruir a leitura

 Bezzos: ele garante que sabe o que se lê. Tem um chip em cada leitor.

 

1. O Kindle é o aparelho de leitura de livros digitais vendido pela Amazon. Mas, mais do que isso, é uma espécie de chip com que a Amazon controla e monitoriza os seus leitores: com o Kindle, sabe quantas páginas eu li, que passagens destaquei, onde parei mais tempo, que livros abandonei a meio, que títulos recomendei – tudo (inclusive, paga aos autores da sua plataforma de acordo com as páginas lidas). A leitura, último refúgio da humanidade civilizada, deixou de ser uma atividade solitária para passar a estar sob escrutínio de um cérebro vigilante que arquiva, organiza e se serve de dados sobre a nossa intimidade (disponibilizando essas informações a outras empresas e aos governos) e os nossos sonhos, supondo que os livros ainda alimentam a capacidade de sonhar, aprender ou perguntar. Cuidado com o que leem: «Every time a reader is online, Amazon can see what they’re up to. Even if it’s anonymous, that’s a lot of data mining», diz Kerry Wilkinson, um dos autores da távola retangular, perdão, do Kindle.

 

2. A Amazon, através do Kindle (e também outros serviços digitais como o Youboox e o YouScribe), pagará aos seus autores consoante as páginas lidas ou não lidas. O que supõe uma monitorização permanente dos leitores (vigiados por um chip) e das suas escolhas através dos aparelhos eletrónicos – uma ameaça evidente à privacidade de cada um. Coisa ainda mais perversa, para calar os recalcitrantes: há um bolo de 53 milhões de euros para dividir entre os autores exclusivos do Kindle, diz a Amazon. James Joyce receberia muito pouco (talvez o monólogo de Molly Bloom escapasse), e muitos contemporâneos veriam os seus direitos de autor reduzidos ao mínimo. A ideia não é apenas perversa; é um ataque frontal a séculos de literatura (“um livro é um todo”) e uma desvalorização da arte de ler, que inclui o direito de saltar páginas para fazer uma sesta.

FJV1 e 2]