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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Um poema de Nuno Moura

fico angústia

(a misteriosa quietude é afinal a passadeira de peões,

na rua em frente, sempre desocupada)

mas não te posso mudar a rota

até que choques contra mim

(a força das direcções contrárias leva-nos

aos dois para trás, voei um bom bocado

com a tua cabeça no meu peito)

 

de qualquer modo e se quiseres falar sobre isso,

traz a linguagem baixinho

estarei no bar esmeralda, como sempre,

segue o carreiro das pedras brancas

 

Nuno Moura, in Os Livors de [...], Mariposa Azual, 2000 

 

Um Poema de Camilo Pessanha

INTERROGAÇÃO 

 

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha, in, Clepsidra, 

Um poema de António José Forte

AINDA NÃO 

 

Ainda não há dinheiro para partir de vez

não há espaço de mais para ficar

ainda não se pode abrir uma veia

e morrer antes de alguém chegar 

 

ainda não há uma flor na boca

para os poetas que estão aqui de passagem

e outra escarlate na alma

para os postos à margem 

 

ainda não há nada no pulmão direito

ainda não se respira como devia ser 

ainda não é por isso que choramos às vezes

e que outras somos horóis a valer 

 

ainda não é a pátria que é uma maçada

nem estar deste lado que custa a cabeça

ainda não há uma escada e outra escada depois

para descer à frente de quem quer que desça

 

ainda não há camas só para pesadelos

ainda não se ama só no chão

ainda não há uma granada 

ainda não há um coração 

 

António José Forte, in Uma Faca nos Dentes, ed. Parceria A.M. Pereira

 

Um Poema de Bénédicte Houart

com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido

com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e 
de queixo bem lambuzado
como convém

cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos

com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto

bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto

(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros veem comer)

 

Bénédicte Houart, in Aluimentos, ed. Cotovia 

Um Poema de Golgona Anghel

 

POETA NA PRAÇA DA ALEGRIA: 

 

Não sou infeliz. Não, não me quero matar. 

Tenho até uma certa simpatia por esta vida

passada nos autocarros,

para cima e para baixo.

Gosto das minhas férias 

em frente da televisão.

Adoro essas mulheres com ar banal

que entram em directo no canal.

Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas. 

Acredito nos milagres de Fátima

e no bacalhau com broa. 

Gosto dessa gente toda.

Quero ser um deles. 

 

Não, não guardo nenhum sentido escondido. 

Estas palavras, aliás, podem ser encontradas

em todos os números da revista Caras.

A ordem às vezes muda. 

Não quero que me façam nenhuma análise do poema.

Não, não escrevam teses, por favor. 

Isto é apenas um croché 

esquecido em cima do refrigerador. 

 

Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.

 

Obrigado por procurarem a eternidade da raça. 

Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça. 

 

Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam, ed. Mariposa Azual 

Um poema de José Carlos Barros

NÃO INVENTES

 

Não venhas cá com merdas. Não inventes. 

Não olhes nos meus olhos. Sai apenas. 

E poupa-me aos discursos eloquentes

e às farsas do adeus. Não faças cenas. 

 

Não digas que lamentas ou que a vida

às vezes é assim: que tudo esquece; 

que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.

Repito, meu amor: desaparece. 

 

E leva o que quiseres de tudo quanto

um dia suspeitámos partilhar:

os livros, as esculturas em pau-santo,

os discos, os retratos, o bilhar. 

 

Não deixes endereços. Por favor:

eu quero é que te fodas, meu amor. 

 

José Carlos Barros, in O Uso dos Venenos, ed. Língua Morta 

Vargas Llosa apela à mobilização hispânica contra Trump

Mario Vargas Llosa pensa que a comunidade hispânica, nomeadamente nos Estados Unidos e no México, está a ser "claramente prejudicada". Em declarações à comunicação social durante a apresentação do projeto "O valor económico do espanhol", o escritor e ensaísta peruano argumentou que as línguas devem ser defendidas perante cenários de perigo, dando o exemplo do "espanhol nos Estados Unidos".

Um poema de Margarida Vale de Gato

 

INTERCIDADES

 

galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
 
preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre os carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
 
preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as 
pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
 
preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
 
meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre as velas acesas
 
barcos.

 

Margarida Vale de Gato, in Mulher ao Mar, ed. Mariposa Azual 

Um poema de Rui Pires Cabral

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

para o Vítor

 

Os poemas podem ser desolados

como uma carta devolvida,

por abrir. E podem ser o contrário

disso. A sua verdadeira consequência 

raramente nos é revelada. Quando,

a meio de uma tarde indistinta, ou então 

à noite, depois dos trabalhos do dia,

a poesia acomete o pensamento, nós

ficamos de repente mais separados

das coisas, mais sozinhos com as nossas

obsessões. E não sabemos quem poderá 

acolher-nos nessa estranha, intranquila

condição. Haverá quem nos diga, no fim

de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?

Não sabemos. Mas escrevemos, ainda

assim. Regressamos a essa solidão

com que esperamos merecer, imagine-se,

a companhia de outra solidão. Escrevemos,

regressamos. Não há outro caminho. 

 

Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim 

 

Um poema de José Miguel Silva

 

Eu nunca gostei de portas, sempre as vi como
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir 
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.

 

 

José Miguel Silva, in Erros Individuais, ed. Relógio D' Água